sexta-feira, janeiro 20, 2012

Superficialidade Política



A arte de gerir a vida cívica foi se desenvolvendo ao longo dos séculos e as dimensões da abrangência da sua ação transformou-se. Se, por um lado, os mecanismos de ação política tiveram de se diversificar, por outro, a massificação desses mecanismos tornaram a intervenção politica menos transparente e mais superficial.
A comunicação política transformou os políticos em produtos comerciais, altamente sofisticados, cujas características como a imagem, os hábitos e os gostos, muitas vezes estereotipados, prevalecem sobre os valores, as ideias e as propostas. Os políticos passaram a “vender-se” como autênticas estrelas de cinema por uma indústria de marketing político agressiva.
A moda na política e a subsequente superficialidade chegou a Portugal. Nos últimos dezasseis anos, sobressaíram políticos que não são mais do que produtos elaborados e altamente condicionados pelos meios de comunicação social, por interesses de ordem social, cultural, económica e financeira.
Os resultados estão à vista: O país regrediu e as políticas eleitoralistas condicionaram a vida para as próximas décadas.
A orientação eleitoralista fez com que Portugal fosse campeão das coisas negativas e que não se delineassem políticas estruturais a médio e longo prazo. A opção centrou-se na obtenção de resultados fáceis, na obsessão pela popularidade, mesmo tendo a noção que se estava a hipotecar o futuro do país.
O exemplo mais evidente da primazia pelos holofotes mediáticos é a postura dos mais recentes governos da república em relação à Região Autónoma da Madeira. Quando se arrecadavam votos por estar ao lado da Madeira, a opção foi a solidariedade, por seu turno, quando a generalidade da opinião pública pedia que se reprimisse os madeirenses, foi essa a escolha. Eis a aplicação mais elementar da política dos barómetros e das sondagens.
Contra a corrente dominante, a opção do Governo Regional passou por executar os seus programas e de ser autêntico na sua ação. Certamente, em determinados momentos do processo de desenvolvimento da Madeira, a opção por uma postura superficial poderia ter sido bem mais confortável ou popular, embora susceptível de levantar dúvidas, designadamente:
Seria possível executar o processo de infraestruturação se fosse tido em conta unicamente a opinião pública ou o juízo dos que condicionam a liberdade de pensamento do povo?
Os níveis de desenvolvimento evidenciados na Região seriam os mesmos se a linha estratégica fosse de avançar e recuar mediante a opinião dominante?
Atendendo à política de imagem, seria possível alavancar a Madeira longe dos mediatismos que hoje são valorizados pelos políticos da moda?
Certamente que a resposta a todas estas questões teria de ser negativa, visto que a autenticidade na política, a responsabilidade e o rumo estrategicamente tomado foram os trunfos para a obtenção do desenvolvimento Regional.  
A crispação que se tem vindo a se acentuar nas posições dos Governos centrais em relação à Madeira fazem concluir que existem outros objetivos por detrás de uma estratégia de desgaste do poder político regional. Será admissível uma Região autónoma ter um produto interno bruto acima do obtido no país? Será conveniente uma Região ter índices de qualidade de vida e de conforto superiores aos nacionais? Será aceitável a estabilidade política que sempre retratou o panorama político regional?
Apesar de tudo, muitos portugueses e políticos, da parcela continental, continuam a não perceber ou a não querer perceber, o mérito da governação madeirense e a robustez das suas políticas. Esquecem que, apesar das várias tentativas, os madeirenses continuam imunes à “política de plástico”. A verdade é que o povo não sobrevive de imagens e de slogans sofisticados, mas sim de opções políticas que determinem, pela positiva, o alcance do desenvolvimento desejável.    
A Madeira é hoje por via dos sucessivos governos da república sacrificada e punida injustamente.
No entanto e para já, olhando para a realidade nacional, estamos irremediavelmente reféns desta política que não se poderá continuar a tolerar para o futuro.
Os tempos são de mudança, o clima político exige reformas estruturais, que devem também passar pela reflexão do que se ambiciona, na Madeira e em Portugal continental, para o futuro das Autonomias Regionais.
A política real, autêntica e coerente, sejamos sinceros, faz muita falta a Portugal.

Artigo de opinião no Jornal da Madeira 

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