PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA Jornal da madeira | | POR
A Região Autónoma da Madeira sempre foi vista, por algumas classes de Portugal continental, como um caso indomável, ou seja, não suportavam a ideia que a sua capacidade de se desenvolver e de ultrapassar os obstáculos não dependiam, unicamente, da estratégia e das diretivas nacionais. Obviamente que a capacidade demonstrada, ao longo do tempo, em especial no período da autonomia política, causou um mau estar nas elites políticas portuguesas.
Os índices de desenvolvimento, a capacidade de executar os fundos europeus e a crescente qualidade de vida das populações, sem paralelo noutro território nacional, fizeram apontar as armas e energias para um presumível desgaste do poder político regional, de forma a derrubá-lo e, através desse feito, apropriar-se dos destinos da Região Autónoma. São também esses os propósitos dos partidos políticos da oposição local, sempre subservientes às linhas orientadoras nacionais mesmo em matérias que prejudicam os madeirenses. Depreende-se então que se, hipoteticamente, esses fossem algum dia poder entregariam os destinos da Madeira à classe política nacional.
Depois da escandalosa manipulação de toda a opinião pública em plena campanha para as últimas legislativas regionais na Madeira acerca da dívida da Região, os mesmos atores, voltam à carga, agora com um aparatoso e sensacionalista caso de averiguações. O que se coloca em causa não é a liberdade da justiça proceder as investigações que entenda, mas sim o método e a escandalosa vontade em tornar o caso mediático. É também importante referenciar que, apesar de não existir um caso de fixação semelhante na história recente de Portugal, mesmo após tantos escândalos e de um país na bancarrota, colocado por um investimento invisível, pretendem, mais uma vez, que a Madeira seja culpada pelo lastimável estado nacional.
Todo esse aparato, nas diversas situações retratadas, tem sido alimentado por uma comunicação social que de imparcial nada tem, e que é manipulada pelos mesmos interesses que predominam em Portugal. Desdobram-se em contradições, em insinuações e em artefactos com um único objetivo, de fazer sangue e de desgastar os únicos que ganharam eleições sem seguir as suas orientações e campanhas mediáticas.
Perante todas estas situações podemos afirmar que a Madeira é uma região à parte em Portugal:
Está à parte porque, apesar de haver um só País e duas Regiões, consagrados na Constituição, a perceção das classes, ditas iluminadas, é que existe um País e uma região;
Está à parte porque o Estado não cumpre com as suas obrigações constitucionais, com a agravante de ser míope em relação às implicações das mesmas nas finanças públicas regionais;
Está à parte porque, ao contrário de todos os outros cidadãos, os da Madeira, têm de pagar as suas contas sem qualquer auxílio e solidariedade de um Estado, dito de todos;
Está à parte porque tem de colmatar com os seus próprios meios as necessidades infraestruturais e sociais da Região;
Está à parte porque, quando chega a hora de negociar e de tratar dos assuntos da Madeira, a doutrina nacional assenta na subtração, na insensibilidade e na intransigência;
A Madeira está à parte porque não temos um País à altura de reconhecer que desenvolver um território regional é também desenvolver Portugal.
Este contrassenso que, por um lado retrata um sentimento nacional de pertença relativamente à Região Autónoma da Madeira, com objetivos meramente coloniais, por outro reflete uma visão dual do país e das suas populações.
Na semana que se comemorou o 25 de abril em Portugal, marco de uma transição importante da ditadura para democracia, e que fundamenta os princípios do atual regime político, é tempo de uma profunda reflexão, em especial para os idealistas e prosseguidores das bases da República Portuguesa. Como se pode comemorar abril quando os tendenciosos órgãos de poder político agem para condicionar as escolhas das populações? Como se pode comemorar abril e a liberdade democrática quando os órgãos do Estado são utilizados para condicionar a ação dos poderes políticos eleitos legitimamente pelas populações? Como se pode comemorar abril quando as regras e os direitos consagrados são só para alguns?
Este é o País que temos, onde a obsessão de certas classes imperam sobre os verdadeiros interesses nacionais. O regime está condicionado e, ao invés de se averiguar o que se desconhece e o que jogou os portugueses para o desespero, por via de um estado gastador sem efeitos práticos, a Madeira continua a ser o objeto das frustrações de certos setores nacionais. É tempo de uma clarificação e nenhum território, nem nenhum cidadão se devem resignar perante as injustiças e as atitudes dúbias de um Estado, dito de todos.
Ainda bem que a Madeira esteve à parte, nestes últimos trinta e seis anos, porque se tivesse subjugada às orientações nacionais, continuaria a ser uma Região subdesenvolvida, socialmente injusta e culturalmente atrasada, encaixando-se, na perfeição, no tal sonho nacional.
Sem comentários:
Enviar um comentário