PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA Jornal da madeira | |
Afundada a Grécia, Portugal passa a ser o bode expiatório dos governantes alemães. As recentes declarações de Angela Merkel respeitantes à aplicação dos fundos europeus na Madeira e as palavras do alemão Martin Schulz, Presidente do Parlamento Europeu, sobre as relações económicas de Portugal representam o desconhecimento e a perseguição da Alemanha face aos outros países europeus.
Se, por um lado, as declarações produzidas são sobrevalorizadas, repercutindo-se como caixas-de-ressonância, por outro, tem inevitáveis consequências no prestígio e nos esforços, que têm vindo a ser feitos, quer pela Madeira, quer pelo País como um todo.
As declarações de Merkel ferem o orgulho dos madeirenses e são injustas para uma Região que foi, durante muitos séculos, esquecida no meio atlântico e que, fruto do seu esforço e com o apoio de outra Europa, mais solidária e apostada na coesão, conseguiu, através do sentido de oportunidade e de visão, aproveitar ao serviço da Região e de uma forma exemplar os fundos estruturais.
Dizer que, «Quem já esteve na Madeira, deve ter ficado convencido que os fundos estruturais europeus foram bem aplicados na construção de muitos túneis e auto-estradas, mas isso não conduziu a que haja mais competitividade», era perfeitamente aceitável se essas palavras tivessem sido proferidas por um cidadão comum sem conhecimento de causa ou por pura ignorância, mas reprováveis quando emitidas pela chanceler alemã, numa conferência, na Bela Foundation, em Berlim.
O desconhecimento do processo de desenvolvimento da Madeira e das condições sobre-humanas em que vivia a sua população até 1976 são a única justificação para que Merkel produzisse tais declarações.
Não há dúvidas que as acessibilidades são fundamentais em qualquer território para o seu desenvolvimento. Como se não bastasse as restrições naturais e intransponíveis de uma região ultraperiférica é absurdo questionar a aposta nas acessibilidades internas. Seria mais competitivo demorar quatro ou cinco horas para se deslocar de um ponto da ilha a outro?
Por seu lado, Merkel desconhece que os fundos europeus, para além de terem sido direcionados para edificar as acessibilidades regionais foram também aplicados na construção de importantes obras sociais, que vieram dar dignidade e qualidade de vida à população da Madeira, como foram os casos das escolas, centros de saúde e de centros cívicos. Ao invés desta aposta social seria aceitável que as pessoas continuassem a viver sem as mínimas condições de saúde e de acesso à educação?
Outros argumentos podiam ser utilizados, mas de uma coisa temos a certeza, sendo evidente o desconhecimento da chanceler alemã sobre a Região Autónoma da Madeira, esse desconhecimento não é justificativo para que se coloque em causa um trabalho de décadas. Basta uma simples consulta sobre a performance da aplicação dos fundos estruturais para verificar que a Madeira é um dos bons exemplos na Europa sendo evidente o salto qualitativo alcançado. A estratégia da Região foi, e bem, priorizar as pessoas porque, ao contrário do que pensa a governante alemã, a competitividade económica é importante mas os alicerces desse dinamismo dependem e muito das acessibilidades e das condições de vida das populações.
A europa ideal de Merkel é uma Europa gerida pela Alemanha a mercê das suas prioridades e interesses.
Por sua vez, e depois desta declaração inqualificável, surge o alemão Martin Schulz, Presidente do Parlamento Europeu, que veio criticar o facto de Portugal estar a pedir investimentos angolanos e que, no seu entendimento, “o futuro de Portugal é o declínio”. Esta afirmação não admira para quem saiba qual é a pretensão da Alemanha que quer concentrar o predomínio económico da Europa no seu País. Convém relembrar que Portugal está sobre administração estrangeira, através de medidas impostas pela troika, que têm apenas objetivos financeiros e que não delineia medidas de crescimento económico daí que cumpre a Portugal encontrar os seus parceiros, em especial de países com ligações privilegiadas e históricas profundamente enraizadas.
Esta concertina da Alemanha não só quer administrar as opções políticas, económicas e sociais de países como Portugal, como também pretende boicotar as soluções e as estratégias que o País soberanamente pretender encontrar para alavancar a sua economia.
Estes são dois exemplos escandalosos do rumo que a Europa está a tomar. A Europa por este caminho não é a Europa social, a Europa solidária e a Europa da coesão que foi declarada pelos membros fundadores. Atualmente temos uma Europa sob PRESSÃO ALEMÃ.
http://impresso.jornaldamadeira.pt/opiniao.php?Seccao=12&id=208311&sdata=2012-02-16
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