terça-feira, outubro 23, 2018

SOA O ALARME DA DESERTIFICAÇÃO

O combate à desertificação das zonas rurais é um dos grandes desafios do nosso tempo que exige mais atos do que palavras, mais medidas estruturais do que pontuais.
É gritante a perda de população das pequenas localidades, e um grande exemplo é o da freguesia da Ilha, que desde 1989, ano da sua fundação, perdeu mais de cerca de 80% da população, e que, seguindo esta tendência, em sensivelmente mais 10 anos fica completamente deserta. Este declínio acentuado da população deve-se essencialmente a três razões: emigração, prossecução de estudos no exterior e falta de dinâmicas económicas que criem postos de trabalho.
Se hoje a emigração é menos representativa, até porque a média de idades da população local já não se compactua com essas decisões de vida, por outro, a prossecução dos estudos dos jovens é já um dos motivos fortes do êxodo, daí que muito dificilmente, quer seja por falta de emprego ou até pela ausência de motivação de regressar à terra, assistiremos à inversão da pirâmide demográfica nos próximos anos.
Perante esta constatação soa o alarme da desertificação. Afinal o que fazer? O que está pensado e ainda não foi feito? O porque de não ser um desígnio nacional o abandono das zonas rurais?
As iniciativas que têm aparecido, numa tentativa de fixar as pessoas, são positivas mas não chegam. É preciso ir mais longe. É preciso mais apoios, é preciso medidas fiscais estimuladoras que no seu cálculo possam repercutir a nível da economia familiar pelo menos o valor que investem para se deslocar ao trabalho ou os sobrecustos de viver fora dos grandes centros urbanos.
O diagnóstico está feito há muitos anos e, a exemplo da Ilha, são muitas as localidades do nosso país, com um cenário semelhante ao aqui descrito.
Não bastam intenções, são precisos atos concretos, nomeadamente majorações no acesso ao emprego, deduções fiscais substanciais, apoios ou até mesmo a isenção de encargos com a educação dos filhos, apoios de fácil acesso para a dinamização de negócios locais, entre tantos outros.
No caso da freguesia da Ilha, a solução poderia passar por rentabilizar as infraestruturas que se encontram desativadas, muito por via do fenómeno da desertificação, e desenvolver, nesses espaços, atividades comerciais de apoio ao turismo, alicerçadas nas instituições locais que tenham provas dadas e um percurso assente na inovação e serviço à população. Esta solução poderia servir para alavancar outro tipo de iniciativas, nomeadamente de âmbito privado, o que atualmente não surge.
Nesse aspecto, a Ilha, no que toca ao turismo, é, ainda, apenas um ponto de passagem, não existindo estruturas comerciais locais especializadas para o segmento.
Mas, acredito que ainda podemos ir a tempo. O caminho terá de ser feito com sinergias e vontades, com um olhar estratégico sobre os territórios rurais, porque, ao não fazermos nada, podemos perder as localidades que são as matrizes mais genuínas da nossa Região e do nosso País, num mundo cada vez mais indiferenciado e global.


@opiniaodiáriodasfreguesias - 23.10.2018
#ilha #santana #madeira #dnmadeira#diáriodasfreguesias
Soa o alarme da desertificação

sexta-feira, agosto 10, 2018

AO QUE NÃO MERECE SER ESQUECIDO

Há 13 anos atrás nasceu um evento com o intuito de homenagear os “embarcados” na freguesia da Ilha. De facto, desde a primeira hora, vingou por ser distintivo de todos as outras iniciativas que existiam para assinalar a importância das nossas comunidades, porque, até à altura, haviam iniciativas direcionadas para destinos de emigração em concreto, mas nunca um evento generalizado para Todos os emigrantes, de todos os destinos do mundo, onde estão madeirenses.
Colocar a emigração no centro de uma localidade como a Ilha é reconhecer o seu inegável contributo para o progresso de todos. Os que partiram, à procura de melhores condições de vida, e aqueles que cá ficaram, pela forma como beneficiaram dos conhecimentos e da solidariedade daqueles, que mesmo longe, não deixaram de olhar para os seus e para a sua terra.
A Madeira e as suas gentes são o que são hoje, muito graças à abnegação, ao espírito altruísta, ao exemplo empreendedor e, sobretudo, pela revolução de mentalidades que foi feita muito por via das nossas comunidades. O novo povo espalhado pelo mundo é um hino à humanidade, é um exemplo de afinco, é um motivo de orgulho pela forma como ultrapassaram desafios e são  reconhecidos onde se erradicaram.
Este domingo, uma vez mais, a Casa do Povo da Ilha, volta a assinalar o Dia do Emigrante, num ato de tributo, de um povo que sempre soube reconhecer os seus, homenageia as suas gentes, aqueles que mesmo vivendo fora são gente como nós, são as nossas gentes.  Mais do que pedir, mais do que lembrar dos emigrantes quando se precisa, mais do que “usar” a emigração para fins que a eles pouco dizem respeito, a Ilha relembra todos eles com este bonito simbolismo – organizar uma festa popular e proporcionar um reencontro com as raízes.

O Dia do Emigrante ganha ainda mais relevância quando assistimos à diminuição acentuada da população residente na Ilha, que desde 1989, ano de criação da freguesia, até hoje, perdeu cerca de 400% da sua população, muito por resultado das migrações.

O Dia do Emigrante ganha ainda mais relevância quando assistimos à diminuição acentuada da população residente na Ilha, que desde 1989, ano de criação da freguesia, até hoje, perdeu cerca de 400% da sua população, muito por resultado das migrações. Hoje são bem mais os emigrantes provenientes daquela freguesia que estão radicados na nossa diáspora, por exemplo na França e Inglaterra, do que aqueles que residem na sua terra natal.
Uma vez mais a organização esmera-se para receber os nossos emigrantes, e quando refiro os nossos, são todos os emigrantes da Madeira que são convidados a participar neste encontro da diáspora Madeirense. Parabéns à Casa do Povo da Ilha e aos seus dirigentes, os que constroem abnegadamente uma localidade, que procuram o seu estímulo e motivação em causas comuns, antes de qualquer benefício ou protagonismo pessoal. Por tudo, mas sobretudo pela competência comprovada numa instituição com 26 anos, um grande bem hajam.
Porque a emigração é uma causa Maior, e porque hoje as migrações têm grande versatilidade e causas simbólicas distintas, Domingo marcamos encontro no dia dedicado às migrações na Ilha.


domingo, julho 01, 2018

A INOVAÇÃO NA GESTÃO DAS CASAS DO POVO

 As Casas do Povo são instituições particulares de utilidade pública, autónomas, com órgãos próprios, com agendas próprias e com atitude própria. No fundo, criam, dinamizam e seguem os objetivos que estão previstos nos seus estatutos. 
  
Estas entidades de base local são muito importantes no contexto do associativismo na Madeira e têm uma atuação assertiva e de grande proximidade com as pessoas e, em traços gerais, resumem-se da seguinte forma: Procuram dar respostas aos problemas globais das comunidades onde estão inseridas; Contribuem para a afirmação das localidades; Relevam e asseguram a reativação e manutenção das tradições; Promovem atividades para a ocupação dos tempos livres das populações; Desenvolvem dinâmicas de formação e de inclusão social. 

O trabalho de inclusão social é definitivamente um dos mais relevantes. Não podemos descurar que os seus benificiários, de diversas faixas etárias, enquanto participam nas atividades, não estão isolados, não estão em caminhos desviantes, estão sim em plena integração e, na esmagadora maioria das vezes, contribuem para causas comuns e comunitárias. 

É todo este trabalho que não pode nem deve ser ignorado, em nenhum momento, e cabe, em primeiro lugar, aos seus dirigentes defender, promover e prestar contas dos resultados da sua intervenção. De facto, quem não é falado não existe. Quem não divulga os resultados corre o risco do seu trabalho ser retratado de uma forma que não corresponda à verdade. 

Apesar de tudo, estas instituições tiveram sempre aliados. E neste aspeto, nunca é demais relevar o papel do Governo Regional que desde 1986 acompanhou a par e passo estas entidades. É um facto que o Governo apoiou sempre as Casas do Povo e tem sido determinante para que hoje estas entidades ainda estejam vivas e dinâmicas. Julgo que o fez por considerar e reconhecer a importância e a complementaridade destas instituições no trabalho social e no desenvolvimento do território. 

Quando se fala em inovação lembro-me sempre de uma publicidade que mostrava um lápis e questionava “estás a ver este lápis? A inovação é quem o vê primeiro”Este é mote que é perfeitamente ajustável na gestão das Casas do Povo. O exercício que se procura é o de simplificar, procurar ver primeiro, procurar acrescentar valor a atividades, tradições e dinâmicas locais que possam ser suscetíveis de gerar rendimento, de promover a inclusão e de beneficiar pessoas desfavorecidas.  
O desafio às Casas do Povo passa por pensar em situações existentes nas áreas de intervenção que sejam possíveis potenciar e criar novas valências. Trata-se simplesmente de identificar e procurar ferramentas que as materializem. Felizmente existem uma panóplia de ferramentas financeiras e logísticas que ajudam a viabilizar os projetos  

Nesta linha de ideias é também importante termos a noção que cada instituição e cada localidade têm as suas especificidades. Daí que as Casas do Povo não podem fazer tudo, não podem ser boas em tudo, não podem agir em todos os campos, nem podem ser cópias umas das outras. O que resulta num espaço pode não resultar em outro. Mas vale a tentar e cada um, no seu campo de intervenção, tem, sem dúvida, oportunidades a potenciar. 

A questão que se deve colocar para reflexão é o que distingue a Casa do Povo na minha freguesia, no meu concelho, na minha região. Quanto mais diferenciada, terá maior probabilidade de atratividade, promoção e de alcançar mecanismos de apoio.  

Mas há aqui um trunfo que precisa de ser aprofundado entre todas as Casas do Povo que passa pelos projetos de cooperação. Não tenhamos dúvidas que juntos são mais fortes e é provável que se um projeto for desenvolvido por duas ou mais Casas do Povo terá mais recursos, melhores resultados e maior margem de ação.  

Por seu turno, é importante que as Casas do Povo sejam cada vez mais abertas à sociedade civil. Nas Casas do Povo todos devem ter lugar, porque quanto maior for a massa crítica da instituição, teremos mais pessoas a liderar, a ajudar e a implementar projetos. Não podemos esquecer que quando as ferramentas são claras, quando as pessoas são úteis e quando há projetos, metas e propósitos, que respondem a necessidades concretas, o associativismo é apelativo.  

É ponto assente que quem lidera deve dar o mote, tem de ver primeiro. Os projetos não serão bem-sucedidos se não forem envolventes, e se não procurarem responder aos que os sócios e as populações esperam e querem.  

Neste contexto, partilho aqui algumas ideias que podem ser reforçadas pelas Casas do Povo e que, na minha opinião, serão importantes nas dinâmicas futuras com a finalidade de reforçar a sustentabilidade financeira, que se resumem nas seguintes grandes traves mestras: Cooperação entre as Casas do Povo; Trabalho científico de recuperação/reativação das tradições, nomeadamente com a Universidade da Madeira; Animação de Rua como solução para a sustentabilidade dos projetos culturais; Aposta na Economia da Terceira Idade; Reforço de projetos de Empreendedorismo Social. 
Estou certo, se não nos resignarmos, se fizermos todos um pouco mais, podemos reforçar o papel das Casas do Povo e torná-las modelo de gestão para a sustentabilidade no associativismo. Está ao alcance.  

(Intervenção no Seminário das Casas do Povo da Madeira - 07 de abril de 2018)