Se olharmos para os indicadores económicos de Portugal, que quase todos os dias entram nas casas das famílias, parecem mostrar um país próspero, em crescimento, com recordes de receitas, aumentos salariais e sucessivas baixas de impostos. Um país pujante, atrativo e onde se vive bem. No entanto, este progresso contrasta com um país onde as pessoas enfrentam crescentes dificuldades para aceder ao essencial: habitação, sustento das famílias, educação das crianças e oportunidades que permitam uma vida com dignidade.
O que vemos é um país que não cria condições atrativas para todos, os que vivem cá, os que visitam e os que escolhem Portugal para trabalhar. Todos são importantes, todos deveriam ter espaço para contribuir e ser felizes. E, no entanto, a sensação de desequilíbrio e exclusão é real.
Não, os portugueses não são falhados, não são malandros, nem nasceram no sítio errado. Também os jovens não erraram nas escolhas, nas qualificações ou no caminho profissional. Temos o melhor: as pessoas. Se os portugueses levaram Portugal aos quatro cantos do mundo e construíram impérios, e se mesmo em parcas condições o fizeram, temos, hoje, o dever de ser melhores e de ser obstinados num país de oportunidades. Mas todos temos também o dever de participar e de estar disponíveis para intervir, contribuir, criar, exigir, eleger e ser eleitos.
Vivemos, porém, uma erosão social difícil de disfarçar. O modelo social atual, aliado à falta de respostas e fiscalização, tornou-se anacrónico. Precisamos urgentemente de um novo paradigma: substituir a caridade pela capacitação, garantindo que quem pode trabalhar o faça, com retribuições justas e serviços públicos à altura.
O futuro exige um olhar honesto para a fórmula que nos trouxe até aqui. É preciso reconhecer os sucessos, mas também enfrentar as falhas estruturais. Não podemos continuar a sustentar um modelo baseado na dependência de apoios e em fundos europeus, que por si só não resolvem problemas crónicos como a produtividade, a eficiência económica ou a justiça social.
O discurso político atual está esgotado. A desilusão, o cansaço e a apatia dos partidos tradicionais geram a perceção de que pouco mais há a oferecer além de uma dança de cadeiras, medidas avulsas e nomes reciclados. Por isso, muitos portugueses em eleições optam por dar um murro na mesa, mesmo que à custa do desconhecido, em busca de ruptura, coragem, ação e do novo.
Chegámos até aqui porque o discurso é o mesmo há 50 anos. Faltam reformas estruturais. Precisamos de um quadro político-constitucional, livre de amarras ideológicas, progressista, que promova o mérito, a desburocratização e um sistema político adaptado às realidades de cada território. Em vez disso, os “casos e casinhos” continuam a dominar o espaço público, escondendo o vazio deservindo de refúgio à discussão de ideias para o futuro do país.
Há questões sérias que não podem ser adiadas. O debate sobre o lugar de Portugal na Europa tem de subir na agenda. A evolução geopolítica exige mais do que uma presença passiva: talvez esteja na hora de olhar com seriedade para caminhos como o federalismo europeu, que pode reforçar o país e a posição da União num mundo cada vez mais volátil e frágil.
O futuro será um sonho… se o fizermos agora. Se tivermos coragem para reformar, para agir, para entender que cofres cheios não significam progresso quando os cidadãos vivem com privações. Portugal precisa de um novo caminho, com alma e direção, com sonhos e ação. Futuro já maior, melhor e para todos.
António Ascensão da Trindade

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