domingo, julho 27, 2025

Quando a militância falha: artigo de opinião no Observador


LFiliar-se num partido é, por si só, assumir um compromisso: um sentido de missão e a vontade de contribuir para o bem comum. Contudo, hoje assistimos ao esvaziamento dessa matriz fundadora. Os partidos tornaram-se estruturas fechadas, reféns de formalismos internos que sufocam o pensamento livre e a coragem crítica. O mérito passou a ser medido pela fidelidade, e o poder, quando absoluto, desvincula-se do propósito.


Os sinais de erosão são inegáveis. A participação retraída, a dificuldade em atrair novos membros e os índices crescentes de desmotivação cívica revelam o declínio da confiança na política. Vejamos, por exemplo, o que aconteceu nas últimas legislativas em Portugal: a esquerda perdeu-se num labirinto de indefinições, e o PSD hesita entre a sua matriz histórica e a tentação de se aproximar do PS e do Chega, correndo o risco de anular a sua própria identidade.


Na Madeira, esta deriva é igualmente evidente. Os partidos confundem-se com o exercício do poder institucional, preocupando-se sobretudo em mantê-lo, à custa de alianças e conveniências entre os que estão mais à mão, tantas vezes valorizando mais os que vêm de fora do que os que estão dentro. Quem ousa pensar de forma diferente é silenciado. Quem propõe uma visão própria é estigmatizado. A política tornou-se, de facto, um ambiente onde o pensamento crítico é frequentemente isolado e desacreditado, tudo em nome de uma suposta estabilidade. Quando o certo é distorcido e o errado normalizado, torna-se legítimo questionar se o interesse comum ainda é, de facto, uma prioridade.


Foi este ambiente que me levou a abandonar o PSD, onde, ao longo de três décadas, desempenhei funções em órgãos da juventude e em diversas estruturas do partido, dando o meu melhor com uma militância intensa e ativa. Saio com respeito pelo trajeto que o partido projetou e transformou na Madeira, com admiração e gratidão pelas referências incontornáveis da sua história, desde o militante popular e altruísta de base até aos mais distintos dirigentes, como o Dr. Alberto João Jardim e o Dr. Francisco Sá Carneiro, cuja visão e dedicação estão indelevelmente ligadas à identidade da Madeira. Isso vai comigo e fica também no partido, como parte de um legado que ninguém tira. Mas saio com a convicção de que já não havia espaço para contribuir. A militância transformara-se em obediência, a crítica era encarada como deslealdade e o silêncio tornara-se condição de permanência.


Não desisti da intervenção cívica e política, nem das causas em que acredito. Mas há limites pessoais, profissionais e políticos que não podem ser ignorados. Quero continuar a contribuir para uma participação livre, onde o valor das pessoas e das ideias não seja motivo de exclusão, mas sim de inclusão e construção.


A política não pode reduzir-se ao relativismo, aos slogans e ao marketing. Tem de ser mais. Deve ser uma nobre função que escuta, une e age com coragem, promovendo mudanças reais na vida das pessoas, com integridade e paixão.


Quando a militância falha, jamais pode falhar a responsabilidade individual de participação cívica e política. Precisamos de espaços positivos que voltem a contar. Que pensem nas pessoas. Que sejam solução. Que devolvam identidade, sentido ao voto e à ação cívica. A sociedade fortalece-se na medida em que a participação aumenta, e os partidos e instituições são tanto mais fortes quanto mais abertos estiverem a todos.


António Ascensão da Trindade de contribuir para o bem comum. Contudo, hoje assistimos ao esvaziamento dessa matriz fundadora. Os partidos tornaram-se estruturas fechadas, reféns de formalismos internos que sufocam o pensamento livre e a coragem crítica. O mérito passou a ser medido pela fidelidade, e o poder, quando absoluto, desvincula-se do propósito.

Os sinais de erosão são inegáveis. A participação retraída, a dificuldade em atrair novos membros e os índices crescentes de desmotivação cívica revelam o declínio da confiança na política. Vejamos, por exemplo, o que aconteceu nas últimas legislativas em Portugal: a esquerda perdeu-se num labirinto de indefinições, e o PSD hesita entre a sua matriz histórica e a tentação de se aproximar do PS e do Chega, correndo o risco de anular a sua própria identidade.

Na Madeira, esta deriva é igualmente evidente. Os partidos confundem-se com o exercício do poder institucional, preocupando-se sobretudo em mantê-lo, à custa de alianças e conveniências entre os que estão mais à mão, tantas vezes valorizando mais os que vêm de fora do que os que estão dentro. Quem ousa pensar de forma diferente é silenciado. Quem propõe uma visão própria é estigmatizado. A política tornou-se, de facto, um ambiente onde o pensamento crítico é frequentemente isolado e desacreditado, tudo em nome de uma suposta estabilidade. Quando o certo é distorcido e o errado normalizado, torna-se legítimo questionar se o interesse comum ainda é, de facto, uma prioridade.

Foi este ambiente que me levou a abandonar o PSD, onde, ao longo de três décadas, desempenhei funções em órgãos da juventude e em diversas estruturas do partido, dando o meu melhor com uma militância intensa e ativa. Saio com respeito pelo trajeto que o partido projetou e transformou na Madeira, com admiração e gratidão pelas referências incontornáveis da sua história, desde o militante popular e altruísta de base até aos mais distintos dirigentes, como o Dr. Alberto João Jardim e o Dr. Francisco Sá Carneiro, cuja visão e dedicação estão indelevelmente ligadas à identidade da Madeira. Isso vai comigo e fica também no partido, como parte de um legado que ninguém tira. Mas saio com a convicção de que já não havia espaço para contribuir. A militância transformara-se em obediência, a crítica era encarada como deslealdade e o silêncio tornara-se condição de permanência.

Não desisti da intervenção cívica e política, nem das causas em que acredito. Mas há limites pessoais, profissionais e políticos que não podem ser ignorados. Quero continuar a contribuir para uma participação livre, onde o valor das pessoas e das ideias não seja motivo de exclusão, mas sim de inclusão e construção.

A política não pode reduzir-se ao relativismo, aos slogans e ao marketing. Tem de ser mais. Deve ser uma nobre função que escuta, une e age com coragem, promovendo mudanças reais na vida das pessoas, com integridade e paixão.

Quando a militância falha, jamais pode falhar a responsabilidade individual de participação cívica e política. Precisamos de espaços positivos que voltem a contar. Que pensem nas pessoas. Que sejam solução. Que devolvam identidade, sentido ao voto e à ação cívica. A sociedade fortalece-se na medida em que a participação aumenta, e os partidos e instituições são tanto mais fortes quanto mais abertos estiverem a todos.

António Ascensão da Trindade

Filiar-se num partido é, por si só, assumir um compromisso: um sentido de missão e a vontade de contribuir para o bem comum. Contudo, hoje assistimos ao esvaziamento dessa matriz fundadora. Os partidos tornaram-se estruturas fechadas, reféns de formalismos internos que sufocam o pensamento livre e a coragem crítica. O mérito passou a ser medido pela fidelidade, e o poder, quando absoluto, desvincula-se do propósito.

Os sinais de erosão são inegáveis. A participação retraída, a dificuldade em atrair novos membros e os índices crescentes de desmotivação cívica revelam o declínio da confiança na política. Vejamos, por exemplo, o que aconteceu nas últimas legislativas em Portugal: a esquerda perdeu-se num labirinto de indefinições, e o PSD hesita entre a sua matriz histórica e a tentação de se aproximar do PS e do Chega, correndo o risco de anular a sua própria identidade.

Na Madeira, esta deriva é igualmente evidente. Os partidos confundem-se com o exercício do poder institucional, preocupando-se sobretudo em mantê-lo, à custa de alianças e conveniências entre os que estão mais à mão, tantas vezes valorizando mais os que vêm de fora do que os que estão dentro. Quem ousa pensar de forma diferente é silenciado. Quem propõe uma visão própria é estigmatizado. A política tornou-se, de facto, um ambiente onde o pensamento crítico é frequentemente isolado e desacreditado, tudo em nome de uma suposta estabilidade. Quando o certo é distorcido e o errado normalizado, torna-se legítimo questionar se o interesse comum ainda é, de facto, uma prioridade.

Foi este ambiente que me levou a abandonar o PSD, onde, ao longo de três décadas, desempenhei funções em órgãos da juventude e em diversas estruturas do partido, dando o meu melhor com uma militância intensa e ativa. Saio com respeito pelo trajeto que o partido projetou e transformou na Madeira, com admiração e gratidão pelas referências incontornáveis da sua história, desde o militante popular e altruísta de base até aos mais distintos dirigentes, como o Dr. Alberto João Jardim e o Dr. Francisco Sá Carneiro, cuja visão e dedicação estão indelevelmente ligadas à identidade da Madeira. Isso vai comigo e fica também no partido, como parte de um legado que ninguém tira. Mas saio com a convicção de que já não havia espaço para contribuir. A militância transformara-se em obediência, a crítica era encarada como deslealdade e o silêncio tornara-se condição de permanência.

Não desisti da intervenção cívica e política, nem das causas em que acredito. Mas há limites pessoais, profissionais e políticos que não podem ser ignorados. Quero continuar a contribuir para uma participação livre, onde o valor das pessoas e das ideias não seja motivo de exclusão, mas sim de inclusão e construção.

A política não pode reduzir-se ao relativismo, aos slogans e ao marketing. Tem de ser mais. Deve ser uma nobre função que escuta, une e age com coragem, promovendo mudanças reais na vida das pessoas, com integridade e paixão.

Quando a militância falha, jamais pode falhar a responsabilidade individual de participação cívica e política. Precisamos de espaços positivos que voltem a contar. Que pensem nas pessoas. Que sejam solução. Que devolvam identidade, sentido ao voto e à ação cívica. A sociedade fortalece-se na medida em que a participação aumenta, e os partidos e instituições são tanto mais fortes quanto mais abertos estiverem a todos.

António Ascensão da Trindade


27/07/2025

António Ascensão da Trindade 

domingo, julho 20, 2025

O Futuro é um sonho? opinião Observador


Se olharmos para os indicadores económicos de Portugal, que quase todos os dias entram nas casas das famílias, parecem mostrar um país próspero, em crescimento, com recordes de receitas, aumentos salariais e sucessivas baixas de impostos. Um país pujante, atrativo e onde se vive bem. No entanto, este progresso contrasta com um país onde as pessoas enfrentam crescentes dificuldades para aceder ao essencial: habitação, sustento das famílias, educação das crianças e oportunidades que permitam uma vida com dignidade.


O que vemos é um país que não cria condições atrativas para todos, os que vivem cá, os que visitam e os que escolhem Portugal para trabalhar. Todos são importantes, todos deveriam ter espaço para contribuir e ser felizes. E, no entanto, a sensação de desequilíbrio e exclusão é real.


Não, os portugueses não são falhados, não são malandros, nem nasceram no sítio errado. Também os jovens não erraram nas escolhas, nas qualificações ou no caminho profissional. Temos o melhor: as pessoas. Se os portugueses levaram Portugal aos quatro cantos do mundo e construíram impérios, e se mesmo em parcas condições o fizeram, temos, hoje, o dever de ser melhores e de ser obstinados num país de oportunidades. Mas todos temos também o dever de participar e de estar disponíveis para intervir, contribuir, criar, exigir, eleger e ser eleitos.


Vivemos, porém, uma erosão social difícil de disfarçar. O modelo social atual, aliado à falta de respostas e fiscalização, tornou-se anacrónico. Precisamos urgentemente de um novo paradigma: substituir a caridade pela capacitação, garantindo que quem pode trabalhar o faça, com retribuições justas e serviços públicos à altura.


O futuro exige um olhar honesto para a fórmula que nos trouxe até aqui. É preciso reconhecer os sucessos, mas também enfrentar as falhas estruturais. Não podemos continuar a sustentar um modelo baseado na dependência de apoios e em fundos europeus, que por si só não resolvem problemas crónicos como a produtividade, a eficiência económica ou a justiça social.


O discurso político atual está esgotado. A desilusão, o cansaço e a apatia dos partidos tradicionais geram a perceção de que pouco mais há a oferecer além de uma dança de cadeiras, medidas avulsas e nomes reciclados. Por isso, muitos portugueses em eleições optam por dar um murro na mesa, mesmo que à custa do desconhecido, em busca de ruptura, coragem, ação e do novo.


Chegámos até aqui porque o discurso é o mesmo há 50 anos. Faltam reformas estruturais. Precisamos de um quadro político-constitucional, livre de amarras ideológicas, progressista, que promova o mérito, a desburocratização e um sistema político adaptado às realidades de cada território. Em vez disso, os “casos e casinhos” continuam a dominar o espaço público, escondendo o vazio deservindo de refúgio à discussão de ideias para o futuro do país.


Há questões sérias que não podem ser adiadas. O debate sobre o lugar de Portugal na Europa tem de subir na agenda. A evolução geopolítica exige mais do que uma presença passiva: talvez esteja na hora de olhar com seriedade para caminhos como o federalismo europeu, que pode reforçar o país e a posição da União num mundo cada vez mais volátil e frágil.


O futuro será um sonho… se o fizermos agora. Se tivermos coragem para reformar, para agir, para entender que cofres cheios não significam progresso quando os cidadãos vivem com privações. Portugal precisa de um novo caminho, com alma e direção, com sonhos e ação. Futuro já maior, melhor e para todos. 


António Ascensão da Trindade