quinta-feira, dezembro 27, 2018

MAIS DO QUE SE POR EM BICOS DE PÉS


A Casa do Povo da Ilha voltou a distinguir-se recentemente marcando a agenda cultural da Região com a XXIVa Semana Cultural.
São 24 edições de descentralização, de trocas de opiniões e de democracia cultural, onde, a partir de umas das freguesias mais peculiares do mundo rural madeirense, o ecletismo dos temas em foco, foram potenciadores do desenvolvimento local e de alerta para novas ideias e desafios em diversos domínios.

A edição deste ano não ficou atrás, e o tema central “Património, caminho para o impulso económico” serviu de mote para desafiar novas ideias e projetos exequíveis, com potencial para gerar oportunidades e valor económico. Resumidamente passo a enunciar as mais relevantes:

Campismo de luxo
É uma ideia bem adaptável às localidades rurais e pitorescas da Região, porque assume a perfeita simbiose entre a experiência natureza e o conforto. Enquanto não chegam outros tipos de empreendimentos turísticos à Ilha, o campismo de luxo pode ser o clique necessário. Esta forma de turismo enquadra-se perfeitamente no segmento das experiências sensoriais da localidade.

Dinamização turística pela população sénior
Uma sociedade só é inclusiva se todos tomarem parte dela ativamente, e nesse âmbito há que fomentar programas que possam potenciar os conhecimentos e saberes da população sénior como valor acrescentado para o sector do turismo.
Numa perspetiva de oferecer o que é genuíno e característico das localidades, os mais velhos podem ocupar um lugar de destaque. Neste âmbito, chegou a hora da implementação prática do projeto piloto “O Nosso povo, a nossa marca”, promovido pela casa do povo da ilha.

Cooperação institucional
Um dos grandes obstáculos ao desenvolvimento das pequenas localidades e de algumas áreas sectoriais tem sido a falta de espírito cooperativo/”coopetitivos”, reconhecendo este método de agrupamento mais vantajoso e com melhores resultados. Na Semana Cultural foi, mais uma vez, levantado esse desafio. Há que aproveitar o manancial existente, ao invés de haver superposições e de criar estruturas com os mesmos objetivos.
Juntos, todos podem ganhar. Utopia ou realidade caberá aos intervenientes passar das palavras aos atos.

Preservação das bibliotecas humanas
O acervo de literatura oral e tradicional na nossa terra é riquíssimo, no entanto é emergente que se registe muito rapidamente, dado que todos os dias desaparecem as fontes desse saber. As Casas do Povo são, pela sua índole, instituições que têm a responsabilidade de preservar o tradição popular e, para isso, é tempo de criar parcerias, nomeadamente entre estas instituições, as Universidades e as entidades que têm nos seus desígnios a cultura.
Que a Casa do Povo da Ilha possa dar o exemplo desencadeando um projeto piloto de âmbito científico sobre a recolha da literatura oral e tradicional, como já o fez nos projetos de juventude em ação e na edição do livro Plantas e Usos Tradicional nas memórias de hoje – Freguesia da Ilha.
Vinte e quatro edições de semanas culturais da Ilha é obra! Poderá não parecer, para quem não conheça a dimensão das mesmas, mas é de louvar pelo intercâmbio, pelas oportunidades e pela diversidade que tem sempre primado a iniciativa.
A Semana Cultural da Ilha não acontece simplesmente para alimentar egos e estatutos ou para alguns se colocarem em bicos de pés, porque se assim fosse não perduraria durante tantas edições.
Surgiu e continuará a realizar-se por paixão a uma terra e sempre com o intuito de contribuir para que a nossa cultura, nas mais diversas formas de expressão, seja capitalizada com o intuito de afirmar a terra e as gentes, como trunfos distintivos num mundo cada vez mais indiferenciado.

Porque a verdadeira dimensão de cada semana cultural está sempre nos pós evento, caberá aos intervenientes e aos participantes contribuir para materializar verdadeiramente o que foi lançado e refletido nesta edição.
Este evento cultural, feito sempre sobre a égide da qualidade e excelência, tem sido palco de uma profunda reflexão cultural, mas é sobretudo distinto porque, sempre que as condições o proporcionaram, as ideias têm sido colocadas em prática, que assim seja mais uma vez.

É este o ADN de um lugar há muito encontrado, que dá os seus passos e que tem dado provas que é possível dinamizar espaços culturais e promover cultura fora dos grandes centros.

domingo, dezembro 09, 2018

DSEAM marca a diferença



Há trabalhos que se distinguem e fazem a diferença, é o caso do Ensemble de Percursão da Direcção de Serviços de Educação Artística e Multimédia. 
Parabéns àquela casa de formação que também exerce pedagogia junto da população. 

quinta-feira, dezembro 06, 2018

"Ilha de Cultura" com os devidos "créditos" ao Zé Abreu

Porque é merecido, porque revejo-me nas palavras, porque é de alguém que conhece a verdadeira dimensão da Semana Cultural da Ilha e porque é merecido, transcrevo abaixo o artigo de opinião do Zé Abreu no Funchal Notícias do dia 06.12.2018:
Opinião de Zé Abreu no Funchal Notícias:
https://funchalnoticias.net/2018/12/06/ilha-de-cultura/?fbclid=IwAR1mUy7tBA_XzdrrM0OANcgnqGmtE4xUI5Cy5YVZmo3oyziCfY8xJ88H0_U


"A Casa do Povo da Ilha organizou, excelentemente, – o que já vem sendo uma marca de referência constante nos seus eventos – entre os dias 25 de novembro e 02 de dezembro, a XXIV Semana Cultural da Ilha.
Esta edição teve como tema norteador, a seguinte premissa: “Património, caminho para impulso económico”, que veio de certa forma no âmbito do Ano Europeu do Património Cultural que estamos a comemorar este ano. Sobre este tema ”Ano Europeu do Património Cultural” escrevi, neste espaço de opinião, uma crónica, no passado mês de janeiro. Para os interessados, cá fica a hiperligação para o acesso: https://funchalnoticias.net/2018/01/02/2018-ano-europeu-do-patrimonio-cultural/.
Não tenhamos dúvidas que o património cultural poderá ser também um vetor a explorar como algo imprescindível para qualquer comunidade, visto que contribui e de que maneira, para a melhoria da economia local e regional. Por isso é que todo o património cultural deve ser encarado como um fator de inovação e criatividade, quando é capaz de envolver, verdadeiramente, organizações públicas e privadas.
Uma iniciativa cultural como esta, promovida na freguesia da Ilha, tem uma grande relevância para a vida da comunidade local e acima de tudo, o interesse em dar a conhecer as suas particularidades culturais (materiais, imateriais e ambientais) aos visitantes.
É um facto notável, detetarmos que ao logo destes vinte e quatro anos, esta iniciativa continua a ser uma bela montra de promoção da identidade e até de descentralização cultural, numa freguesia que tem sofrido, como sabemos, nos últimos anos, de uma acentuada diminuição de habitantes – 256 habitantes tendo por base os censos de 2011, mas atualmente a população da Ilha, deve andar na casa dos 170 a 180 habitantes. Mas realça-se que mesmo com a circunstância da população residente ser pouca, a semana cultural da Ilha, não deixa de realizar-se, como prova, diria eu, de uma caminhada cultural louvável e oxalá que continue, assim, dinâmica por muitos bons anos.
A semana cultural é um verdadeiro palco de análise e debate de temáticas socioculturais da atualidade, mas também, de valores, de crenças, de saberes e de tradições. Um local onde se estimula e enaltece a riquíssima cultura madeirense, nas mais variadas formas de expressão, de tempo e lugar. Pois,  “importa sim, que o passado constitua uma base para compreender melhor o presente e para lançar as bases do futuro.” (Guilherme de Oliveira Martins).
Tal como em anos anteriores, nesta edição, foi-nos apresentado um programa multifacetado, bem preenchido com diversas exposições, performances musicais, momentos de animação e teatro, para além de uma interessantíssima serie de debates temáticos de grande pertinência e atualidade.
Para os mais (des)atentos, importa saber, julgo eu,  que estas iniciativas de cariz cultural, têm uma grande importância para todos, pois podem contribuir perfeitamente para refletirmos a partir de que princípios culturais devemos construir (ou reconstruir) o espaço rural, como uma mais-valia para a sociedade em geral.
Há que realçar, também, com toda a humildade e reconhecimento, o distinto papel do apresentador do evento, Carlos Pereira (Nené), que tem demonstrado, profissionalmente, de forma criativa e ativa, há anos, um trabalho de excelência, na produção executiva, organização, protocolo, divulgação e apresentação de imensas iniciativas de carácter cultural e outras, efetivadas com sucesso, por toda a ilha da Madeira.
Durante uns anos orientei o Grupo de Teatro da Casas do Povo da Ilha e notei sempre uma grande felicidade e envolvência da comunidade local nos eventos culturais desenvolvidos naquela freguesia. Cá está a prova, que quando se consegue envolver a comunidade na vida cultural, o resultado, normalmente, é o sucesso. E para mim o sucesso não se limita, somente, aos números. O sucesso é também a durabilidade dos eventos, sempre com inovação, qualidade, presença ativa da comunidade envolvente, participação de pessoas e coletividades de fora, e a aplicação responsável dos apoios financeiros.
Projetos culturais como esta iniciativa valorizam a nossa identidade, de formas muito diversas e inovadoras, cruzando diferentes domínios de atuação e conhecimento de experiências de diversos agentes culturais e da cultura que nos envolve.
Foram, certamente, oito dias positivos, a incentivar o usufruto e o debate em torno da importância das questões culturais, desde a preservação, a valorização e a divulgação. Um excelente método de trocar experiências, de pensar e aprender culturalmente em conjunto. Por isso é que, cada vez mais, temos que olhar para o panorama cultural, como contributo para as mais diversas áreas da sociedade.
O património cultural pode ter, claramente, um papel contributivo e decisivo no combate ao abandono das áreas rurais, dando-lhe, pelo menos, um pouco mais de presença humana. Os resultados vêem-se, quando se aposta em salvaguardar e ativar alguns elementos patrimoniais, como foi o bom exemplo do moinho de água, situado na freguesia vizinha da ilha, em São Jorge. São muitos os turistas e madeirenses que passaram a visitar aquele moinho ao longo do ano, após a sua requalificação.
A cultura quando é encarada com interesse é um bom aliado da sociedade, porque convoca outras áreas do saber. E as pessoas residentes na Freguesia da Ilha têm acarinhado bem a sua semana cultural, realçando-se, acima de tudo “…as suas genuínas e vincadas tradições, a extensa e bela mancha paisagística, o amor da população à terra e a hospitalidade que carateriza as suas gentes” (António Trindade).
Este evento, Semana Cultural da Ilha, promovido pela Casa do Povo local, contou – como assim deve ser – com o apoio da Secretaria Regional da Agricultura e Pescas, PRODERAM 2020, ADRAMA, Câmara Municipal de Santana; Junta de Freguesia e Paróquia da Ilha. Para finalizar, há que deixar um louvor à Ilha, que é um lugar prenhe de boas energias e potencialidades criadoras."
-Opinião de Zé Abreu - Funchal Notícias

terça-feira, dezembro 04, 2018

O QUE É ISTO?!

No âmbito do 82.º aniversário da Casa do Povo de Santo António, teve lugar uma conversa reflexão sobre a importância das Casas do Povo da Madeira.

O debate, sob o lema “O Que é isto?!”, focado nas experiências na primeira pessoa dos quatro intervenientes do painel, com diferentes sensibilidades e experiências na área cultural e no desenvolvimento local, reverteu-se numa pertinente abordagem que desmistificou algumas questões que estão sempre em órbita quando se fala de Casas do Povo, designadamente:



Há Casas do Povo a mais na Madeira?
A resposta a essa questão é clara: Não há casas do povo a mais.
Embora nem todas potenciem a comunicação sobre o quanto fazem, as Casas do Povo da Madeira são todas ativas e desenvolvem projetos meritórios e de grande impacto nas comunidades onde estão inseridas. Divulgam as localidades, servem as comunidades e contribuem para uma integração social e plena das populações.

O seu estatuto transversal é que exige sempre outras dinâmicas, a de se reinventar e de estar permanentemente atentas aos interesses e aos desafios das localidades onde se inserem. Apostar em novas valências, nas grandes necessidades da atualidade e procurar dar respostas através de projetos sustentáveis, profissionais e distintos.

Faz pouco sentido falar em Casas do Povo a mais quando é recorrente surgirem novas associações para responder a áreas onde as Casas do Povo seriam perfeitamente capazes de responder. Talvez neste campo o desafio passe pelo reforço do trabalho em rede dos intervenientes locais, pelo unir esforços e encontrar em sede destas instituições os mecanismos para viabilizar novos projetos e novas valências.










































O dirigismo nas Casas do Povo deve ser profissional?
Não, de todo!
A vida associativa, e em particular numa associação sem fins lucrativos, deve ser exercida por paixão, por uma vontade intrínseca e altruísta. Se resultou em 82 anos porque não deverá continuar a resultar? O que deverá haver são estruturas profissionais de apoio aos dirigentes das Casas do Povo.
Se o entendimento for o de estimular e reconhecer os seus dirigentes poderão ser criados incentivos fiscais, majoração na contagem da idade para a reforma, mecanismos que assegurem a maior compatibilidade entre a vida associativa e a vida profissional, sempre em salvaguarda, quer do trabalhador, quer da entidade empregadora, entre tantos outros incentivos que o Estado tem e deve ter a responsabilidade de assegurar a favor de quem indiretamente promove fins que normalmente deveriam ser supridos pelo próprio Estado.

De que forma a cooperação deve ser aprofundada no meio associativo das Casas do Povo?
Na realidade, há pouco por inventar. Atualmente existem modelos de gestão com base na cooperação de serviço às instituições e subsequentemente às populações a quem servem ou destinam a sua ação.
Neste aspeto, e no caso concreto das Casas do Povo da Madeira, quase todo o trabalho está por fazer e compete em grande parte às entidades representativas estudar, debater e apresentar os modelos adequados de gestão e de dinamização. Ao nível da logística, por exemplo, proceder à criação de estruturas profissionais e especializadas de assessoria, de central de compras, de central de transportes, etc. No que respeita ao funcionamento das valências, quer sejam elas culturais, sociais, de economia social ou artísticas, o aproveitamento de sinergias entre duas ou mais Casas do Povo que possam criar valor acrescentado, massa crítica e qualidade nos trabalhos e serviços que apresentam.
Efetivamente o que se deve pretender com as respostas em cooperação é reduzir o manancial das Casas do Povo à subsidiodependência das entidades autárquicas ou governamentais e acabar com o cada uma a trabalhar virado para si.
Os apoios são importantes, mas para haver melhores respostas e estruturas profissionais atendendo à dimensão de cada Casa do Povo, urge respostas em comum.

Que papel podem ter as Casas do Povo a disseminar a identidade da Madeira junto das suas Comunidades espalhadas pelo Mundo?

As nossas comunidades tendem a queixar-se de que os seus locais de origem têm muito a pedir, mas pouco a fazer por elas. E aqui as Casas do Povo podem ter um papel fundamental na construção de pontes com a nossa diáspora, a disseminar a nossa cultura, a nossa identidade junto das comunidades e junto das novas gerações.
Num mundo cada vez mais indiferenciado, a nossa cultura, as nossas tradições, a nossa forma de ser e de acolher, podem servir, não só como meio de disseminação cultural, mas também, para despoletar quiçá interessantes áreas de negócios aqui na Madeira e fora através da nossa cultura que é única no Mundo.


Este, como outros debates sobre as Casas do Povo na Madeira são de relevar. Mais do que a critica fácil e barata, todos podemos contribuir para uma melhor ação das Casas do Povo.
De facto, há um conjunto de homens e mulheres na Madeira que, envolvidos no espírito de contribuir para a sua comunidade, fazem acontecer, transformam vidas e contribuem para um mundo melhor e mais feliz através de uma atitude abnegada, fazendo o melhor que sabem e podem por amor à sua terra nas nossas Casas do Povo.